
Madrugada de 28 de setembro de 2003. Frio, bem frio. Lá pelas 5h começou uma cerração, que só fazia deixar o clima mais triste ainda. Parece que foi ontem, mas lá se vão 8 anos.
Foi um dos dias que me senti mais sozinha no mundo. Tava lá com mãe, pai, irmã, parentes, mas nenhum amigo e isso me deixou mal pra cacete! Não tão mal quanto o fato em si, óbvio, mas queria ter alguém pra dividir um litro de vinho e reclamar da vida. Vida que há poucas horas havia sito tirada de uma das pessoas mais carentes de amor que eu já conheci. Sem amor de pai e mãe, afastado dos irmãos, renegado por muitos, levou vários golpes da vida e sempre se virou sozinho. De fato, eu não tinha porque me sentir sozinha naquela noite se pensasse direito em tudo que ele havia passado...
É foda ver o quanto a vida é complicada pra alguns. E não complicações

do tipo: ah não tenho roupa pra ir na festa sábado, meu cabelo tá uma palha, espero pelo ônibus por meia hora todo dia! Ou até mesmo: que droga, meu pai não me deu o carro quando passei no vestibular, deus! não consigo um marido e já vou fazer 25 anos! Bobagens... Fico me perguntando como algumas pessoas conseguem sobreviver a tantos infortúnios, da onde tiram força? Definitivamente não sei, mas elas têm força e sobrevivem. Pelo menos até os 36 anos, quando são levadas por uma doença tão horrenda e avassaladora.
Difícil aceitar, entender uma perda, mais ainda quando de modo precoce, breve e conturbado. Tanto tempo depois, os momentos bons foram se fortalecendo na memória e passei a questionar menos os porquês. Lembro que foi ele quem me contou história pra dormir pela 1ª vez e da gente brincando de 'comidinha' com os chuchus lá do pátio. Lembro de quando ele teve caxumba, de quando a mãe expulsou ele de casa e uns dias depois ele me chamou lá na esquina pra dar uma foto (3x4!) pra que eu não o esquecesse, rs. Lembro da Carla ensinando ele a escrever o próprio nome e lembro dele anotando o telefone de alguém na parte de baixo do beliche (e o surto que a mãe teve). Lembro de duas loucas brigando por ele na esquina, se atirando em poças de água, coitadas... Lembro de tanta coisa legal e tento não pensar nas suas últimas semanas ainda com vida.

Daquela noite de 2003 lembro que amanheceu um dia lindo! O sol brilhante tomou o lugar da cerração e aquela saga estava por acabar. Despedidas, lágrimas e saudades sob um céu azul
deslumbrante. A partir daí não lembro de mais nada, nadinha. Estranho... Acho que cada um seguiu pra sua casa e foi viver sua vida, eu devo ter feito isso também.
E agora pouco acabo de acender uma vela cor de laranja perfumada (sugestão do rapaz!) pra 'alumiar os caminhos'. Eu não acredito, mas a luz da vela ficou bem bonita e iluminou a sala de um jeito discreto e delicado, como certa pessoa...


Terminei agora de ler 'O Clube do Filme', de David Gilmour. De todos as escritas do livro, a que mais gostei foi a dedicatória de quem me presenteou:



