Fim de semana passado li o livro Viagem Solitária, do João W. Nery. Ele conta sua história de vida, do homem nascido em 1950 num corpo de mulher. Desde muito cedo, aos 4 anos, ele percebeu que algo estava errado, mas só foi descobrir o que era (transexualidade) na década de 1970 em uma viagem pela Europa. Tudo meio atrasado por aqui, não? Se esse é um assunto que muita gente ignora hoje, imagina há 40 anos? Coragem é a palavra que melhor define esse homem, pois enfrentar o mundo daquela época não deve ter sido nada fácil. Nem a família o reconhecia como homem! Até quando conseguiu finalmente realizar as cirurgias - ainda ilegais, nos anos 70 - enfrentou a maior barra para fazer a mãe entender.

Cara, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. É preciso diferenciar orientação sexual e identidade de gênero. Falo isso por ignorância própria, pois até poucos anos atrás eu não entendia o que era transexualidade. Ou melhor (pior) eu achava que era um gay/lésbica querendo mudar de sexo. Ledo engano. Perigoso engano, pois aí mora o perigo, o preconceito e a maldade. Orientação sexual é a pessoa gostar, se sentir atraída por mulher, homem, pelos dois ou por nenhum. Identidade de gênero é como a pessoa se reconhece dentro dos padrões de gênero estabelecidos socialmente: feminino e masculino. Como se tivéssemos que ser uma coisa OU outra e ponto. Mania de nos prender sempre em caixinhas, tipo 'vc é homem, homem não chora, homem casa com mulher, homem troca lâmpada', 'vc é mulher, tem que ser delicada, abrir a boca só quando for solicitada, casar com homem, ter filhos e morrer na beira do fogão'. Assim é a vida quadrada que sempre nos impuseram. Voltando ao assunto, identidade de gênero é basicamente a pessoa ser homem ou mulher. E às vezes acontece de ela nascer com o corpo errado. É quando o sexo biológico discorda do gênero psíquico. Isso nada tem a ver com homossexualidade! Por exemplo (que eu conheço): uma pessoa nasceu homem, mas se percebe como mulher desde a infância. Ela pode muito bem após realizar a cirurgia de redesignação sexual (troca de sexo) ou antes é claro e até mesmo se ela não realizar, se sentir atraída por mulheres, ou seja, orientação sexual homossexual. Ela vai ter em seus documentos o nome social (que é outra novela), vai ser uma mulher - ou transmulher - e lésbica. Como poderia também ser bi. Aí os idiotas vão perguntar: 'ai pra que ela virou mulher se queria pegar mulher? por que então não ficou homem, que era bem mais fácil?' Porque, ô energúmeno, ser mulher é a identidade de gênero dela!!
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| Precisa desenhar? Então tá aí. |
Voltando ao livro, aqui está uma pequena sinopse, retirada do site da Livraria Saraiva: "Viagem solitária conta a história de João W. Nery, o primeiro transexual masculino de que se teve notícia no Brasil. Especialmente dedicado a todas as pessoas que se reinventam para achar um lugar no mundo, narra a infância triste e confusa do menino tratado como menina, a adolescência transtornada, iniciada com a “monstruação” e o crescimento dos seios - que fazia de tudo para esconder -, o processo de autoafirmação e a paternidade. São muitos os personagens dessa história: de Darcy Ribeiro, considerado seu mentor intelectual e um dos primeiros amigos a compreenderem-no, a Antônio Houaiss, que, sendo um grande defensor das liberdades democráticas, recomendou seu primeiro livro para publicação, Erro de pessoa: Joana ou João?, do qual foi prefaciador. História de dramas, incompreensões e lutas, Viagem solitária é um livro tecido de dor e de coragem e que anuncia, talvez, um mundo menos solitário para os “diferentes”, para aqueles que não se enquadram entre as maiorias."
| João W. Nery |
Li freneticamente até terminar. O livro me emocionou várias vezes, desde o prefácio. E dei algumas risadas também, especialmente de uma frase dita por um amigo de João, o Pedro Matheus: "Até que sou um cara sortudo. Sou cego, negro, pobre, mas felizmente não sou mulher". Tive que rir pra não chorar. Após o fim da leitura fui procurar o autor na internet e encontrei um perfil do Facebook. Num ato de tietagem adicionei e qual não foi minha surpresa e alegria quando ele me aceitou e ainda respondeu minha mensagem! Pessoa querida e atenciosa. Inacreditável, mas ainda existem pessoas boas nesse mundo. Pessoas que passaram as maiores dificuldades e estão na luta pelos seus direitos e pelos direitos de outras minorias.
| João, quando ainda era Joana |
Eu conheci o João (tri íntima) quando a Marília Gabriela o entrevistou em 12.10.2011, mas com a correria da vida acabei esquecendo que eu queria ler seu livro. Quase 2 anos depois me deparei com ele (o livro) na estante da Biblioteca Municipal de Antônio Prado, no meu primeiro dia de trabalho! Então, quem quiser lê-lo é só vir a AP, se cadastrar na Biblioteca e retirar. Brincadeirinha, me avisa, que eu levo num findi pra Porto Alegre, o prazo de empréstimo é de duas semanas, dá tempo né? Ainda mais se a pessoa engolir o livro, como eu.
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| João e seu filho, Yuri, lindo nome! |
Encerro com algumas frases que João citava no começo de cada capítulo do livro:
- 'Quando perdemos o medo de perder, acabamos descobrindo a imensa alegria de achar' - Thomas J. Burke.
- 'Amadurecer é a transcendência do suporte ambiental ao autossuporte' - F. Perls.
- 'A conquista de si próprio é a maior das vitórias' - Platão.
- 'Os espelhos fariam bem em refletir um pouco mais antes de devolver imagens' - Jean Cocteau.


São leituras como esta que nos fazem crescer como ser e humano. parabéns pela iniciativa. Que muitos leiam a obra. Parabéns pelo trabalho na Biblioteca de Antonio Prado.
ResponderExcluirObrigada pelas palavras de incentivo. É um prazer te ter como leitor!
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